Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

GRANDE REPORTAGEM

Era assim no século XIX…
A rede de relações familiares e de amizade desempenha muito naturalmente o seu papel: os irmãos e irmãs dos melhores amigos são partidos indicados, tal como os primos afastados que se encontram por ocasião de festas de família, casamentos, baptizados ou comunhões.
A sociabilidade burguesa cria ocasiões de encontro entre jovens: vendas de caridade, actividades desportivas, noites dançantes. As mães estão presentes para garantir o bom comportamento geral, avaliar os dotes, comparar os partidos em presença.
Durante o noivado as duas famílias regulam as condições e valor dos dotes e marcam a data de assinatura do contrato. Chegado o dia, os noivos vão com os parentes mais próximos ao notário, ou vem este a casa da noiva.
Os saraus são um momento privilegiado para praticar, como amador, a música e o teatro. Entre amigos facilmente se constituem grupos de instrumentistas ou de cantores que se encontram com regularidade, em casa uns dos outros.
No século XIX a sociabilidade e os lazeres masculinos inscrevem-se em espaços separados – clubes, cafés, salas de bilhar – onde as mulheres respeitáveis só vão se acompanhadas.
 
É assim em Falar Verdade a Mentir...
 
            Duarte é um jovem peralvilho, mentiroso compulsivo, primo e apaixonado de Amália e esta dele. Duarte retrata a vida mundana da época: frequenta o teatro, compõe modinhas, assiste à ópera e a concertos e frequenta o baile no clube de que é director.
            Amália é filha do Sr. Brás Ferreira, comerciante do Porto.
            José Félix, ladino e imaginativo, é criado do General Lemos. Revelando uma grande versatilidade, ele será, sucessivamente, um agiota, um inglês e um General Lemos, ou seja, mostrou-se capaz de assimilar rapidamente as características de algumas figuras da época e o discurso “da moda”, um discurso artificial. De facto, a moda é responsável por determinadas regras de comportamento (por exemplo, o General Lemos faz esperar os outros mas é costume esperar pelo seu criado), como também pela utilização de um discurso amoroso (declaração de José Félix a Joaquina).
             Joaquina, esperta e ladina, é criada de Amália, a qual lhe prometeu um dote no dia “que se assinassem as escrituras”. No seu diálogo inicial com José Félix alude a aspectos da época: a rivalidade entre o Porto e Lisboa; a oposição entre um discurso “da moda” e um discurso “real” e faz uma abordagem irónica de certos conceitos também na moda: comédia e drama.
            Se o Sr. Brás Ferreira apanhar Duarte numa mentira, lá se vai o casamento com Amália. De modo que todo o enredo da peça consiste em tornar verdade as mentiras que Duarte inventa, uma atrás da outra.
Falar verdade a Mentir é, de facto, uma comédia que corresponde ao gosto popular da época, com a finalidade de o “educar”.
 
Fontes: Bastos, Glória & Vasconcelos, Ana Isabel (2005). Falar Verdade a Mentir de Almeida Garrett. Porto: Porto Editora.
História da Vida Privada, Edições Afrontamento.
 
publicado por vitelos às 13:39

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